Sempre tivera medo de cruzes. Medo não. Uma espécie de desprezo, como se uma fraqueza de espírito levasse alguém a uma sensibilidade afetiva por cruzes. Cruzes no peito, na parede, tatuadas. Antes do cristianismo existiam as cruzes sim, desprovidas do caráter emocional criado depois da morte de Jesus. Mas isso não importava. Uma altivez acompanhava Vania. Se encontrava no rol daqueles que achavam não precisar de cruzes. Apoios religiosos, nenhum de seus símbolos. Se colocava no papel de quem observa as tentativas humanas de projetar seus medos em objetos místicos, amuletos de sorte. Mas no fundo queria poder sentir alguma emoção religiosa. Sómente quando olhava o verde, raízes, árvores, terra, sentia-se perto de Deus. Pois nunca sentira o toque de Deus. A possibilidade de que uma força maior inexplicável, onírica, absoluta, infinita estivesse por trás de tudo. Mas as cruzes eram definitivas. Altruístas na sua geometria do sofrimento. Vania estava destinada a nunca alc...