Sempre gostara da solidão, quimera, naufrágio, dor. A dor da poesia. Quase sempre a impotência no papel de mãe. Defeito. Um filho, sem controle. Gasta.Não dormia tranquila.O filho saia e quando estava fora bebia e fumava. Não conseguia ignorar, não conseguia achar um meio termo. Um termo tranquilo. Um acordo sobre si mesma. Para onde ir e onde chegar. Helena na metade da vida. Levantava cedo e bebia vinho. A vida monótona , sem vida social. Por isso pensava que necessitava terapia.Só pensava.Não fazia. Via pornografia na TV e não se excitava. Alguma coisa lhe excitava vagamente , mas achava tudo óbvio e se cansava. Preferia pensar que não se tratava de uma incapacidade sua. Um antigo namorado achou estranho que Helena não gostasse de olhar imagens pornográficas, quando íam ao motel.Ele ligava a TV para ver as cenas de sexo que ela achava desnecessárias.Bregas. Se ofendia. Pensava que existiam filmes mais eróticos e excitantes do que aqueles pornôs.Mas olhava indiferente, como se já fossem personagens de uma novela diária, um festival de vaginas sem roteiro. Achava engraçado mulheres sugando pênis e lançando olhares para cima, armação planejada.Achava que ensaiavam isso. Como quando ela mesma aprendeu a chupar vendo um filme . Existem regras básicas .
Pulsão de morte, significante, signo, sexuação, palavras sedutoras...Houve uma época em que me envolvi com a Psicanálise profundamente.Talvez porque sua alma esteja no verbo, no verbalizar a neurose. Participava de cartéis, espécie de encontros semanais fechados onde um mentor, geralmente doutorando, figura respeitadíssima no meio, faz análise conjunta de livros e tópicos de publicações de Lacan ou relacionadas. A maior parte dos participantes já são psicólogos formados e terapeutas eu era uma curiosa ali por que os cartéis são abertos ao público, mas é preciso ser estudante de psicologia ou cara de pau como eu. Se se começa a estudar sobre Lacan fica-se um pouco louco.