Alguém havia lhe dito outro dia: você precisa de um beijo na boca pra acabar com essa tristeza. Fez pouco achando a visão imediatista. A vida não poderia se resumir a um simples toque. Será que como na fábula tudo se transformaria ao toque de midas ? Depois de alguns dias resolve encontrar um amigo virtual.Com ele havia mantido virtuais conversas eróticas de grande excitação . Encontram-se. E envolvidos em boa conversa, bebendo vinho em um bar, o moço lhe dá um beijo nos lábios. Há um ano Rita não beijava ninguém. Por absoluta incompetência social.Mulher madura e atraente.O ex agora amigo virtual mostrava-se loquaz e culto, queria ir para a praia a noite para seguir a conversa. Atitude adolescente. Ela recusou o convite. Achava ridículo ficar aquela hora da noite feito criança se pegando na areia da praia.Mas aquele beijo de desejo foi infinito.A vida de Rita no dia seguinte parecia mais bela. Ela havia sentido naquele beijo uma doçura nunca experimentada. Pensava que os céticos de coisas românticas diriam: mas foi só um beijo! Um beijo,uma nota musical, que aquele moço de 30 anos amante de música barroca e de Luis de Camões havia depositado em seus lábios. Aquele moço foi o Midas sem o saber. Rita ficou ardente,inundada de luz. Pensava que o mais delicioso seria manter aquela emoção suspensa por dentro por mais alguns dias. Uma espera sem desespero. Um beijo congelado para sempre. Rita voltaria ao isolamento.
Pulsão de morte, significante, signo, sexuação, palavras sedutoras...Houve uma época em que me envolvi com a Psicanálise profundamente.Talvez porque sua alma esteja no verbo, no verbalizar a neurose. Participava de cartéis, espécie de encontros semanais fechados onde um mentor, geralmente doutorando, figura respeitadíssima no meio, faz análise conjunta de livros e tópicos de publicações de Lacan ou relacionadas. A maior parte dos participantes já são psicólogos formados e terapeutas eu era uma curiosa ali por que os cartéis são abertos ao público, mas é preciso ser estudante de psicologia ou cara de pau como eu. Se se começa a estudar sobre Lacan fica-se um pouco louco.