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A mulher invísível

Então ela disse: eu sofri mais do que você. Carregar dores , fazendo delas um teatro particular que deveria  ser assistido com admiração pelo outro, isso um narcisista deseja o tempo todo. Como quando ela saia falando alto pela rua, incontrolável. A energia sempre jogada no lugar errado, errando o alvo. Se perguntava até quando se culparia por todos esses erros que a haviam jogado em uma situação financeira e emocional catastrófica. A vida inteira jogando contra si mesma, isso inaceitável agora. Como havia sido difícil aceitar-se  na maturidade, quando dava-se conta dos erros de maneira tão clara. Estava tentando sair do buraco , a maconha ajudava. Desde que usada na quantidade certa. A vontade de ficar na preguiça de desistir de lutar ainda  era muito grande. Depois de dois anos se automedicando com antidepressivos simplesmente por que não trabalhava, por que não lembravam mais dela.O medo de ser esquecida inundava sua alma de uma pesada névoa. Um remédio atrás do outro , as vezes com uma pausa de uma, duas semanas, raramente de um mês. As pesquisas feitas na internet lhe indicavam o que tomar. 

Seria ela uma inteligência excepcional que estaria sucumbindo ao descontrole emocional e quem sabe a maconha? Questionava. Se não suportava estar mais em casa, por que ficava? Paralisada, amuada. Nunca fora de sair muito a noite. Agora ficava se exigindo algo que nunca fizera durante a vida. Vida que ia se desvendando aos poucos como em um  filme sem final. Sentia-se feia, mal vestida, sentia-se fraca. Faltavam-lhe forças  mentais para voltar a escrever, estudar, engajar-se em eventos, produções, podcast. Conexões com pessoas, tudo parecia muito triste, como se estivesse em outro mundo, não sendo olhada, parecia que lhe viam como louca, desprezível. Era preciso provar o tempo todo a si mesma que sim poderia seguir em frente. Não tinha famíla. Todos desiquilibrados, drogados. Uma terapeuta que não falava, tampouco lhe cobrava. Uma iniciante talvez. Quanto tempo ainda lhe restava para viver?  Precisava outros olhos que não os seus para ver o mundo de outra forma, para pensar de outra forma, para não ter que apoiar-se em estruturas mentais esquizofrênicas. Mais escutava que falava. Não ter um rosto novo era difícil para ela. O rosto é o cartão de visita diziam. Não iria permitir que o seu desabasse como a querer alcançar o chão. Fazia muito e não fazia nada.   

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