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Postagens

Uma mulher prisioneira

* sobre a fantasia amorosa ou dependência emocional* Via a s pessoas voltando às suas casas, loucas por um banho, um cheiro de sabonete,  coisas familiares. O arrepio. Via a eles dois, lutando indefinidamente. A bondade e o egoísmo, o branco e o negro, o romantismo e o sarcasmo. Percebia  que ele   já não suportava essa perseverança. Mas Llia  tínha medo. Medo da solidão. De não conseguir concretizar planos e projetos, um sem o outro. Ela sem ele, sem seu olhar, sua atenção. Talvez fosse o amor disfarçado em uma das suas mil formas. As pessoas são tão simples e tão cruéis, pensava Lia.  Como acreditar nos vizinhos, nos transeuntes, naquele senhor idoso que descansava sob a cadeira, na calçada? Como acreditar  naquelas tuas maduras constatações sobre humanidade? Era uma guerra genuína e maluca entre casais, entre vizinhos pela alegria de manter princípios. Um foguete atravessava um céu  carregado mas sem nuvens, sem nebulosidade. Lia e seu corpo as...

Pandora e a liberdade de ser

Quem já não ouviu ou se encantou com a linda figura chamada de Pandora, retratada em imagens, abrindo uma caixa misteriosa. Expressão comum dizer : o que você esconde na sua caixa de Pandora?  Essa figura mítica foi criada no  tempo em que as religiões eram politeístas, se acreditava em vários Deuses. A pluralidade de deuses fez germinar lendas lúdicas e belas no século  VII a.C. Pandora talvez fosse nesse tempo antes da era cristã o equivalente a figura de Eva criada pelo Deus cristão.  Quantas interpretações demandam dessa história. A figura mítica de Pandora tem servido de referência para versões das mais diversas dentro da Psicologia e outras ciências. O feminino, que é a mãe, a origem de todas as vidas humanas, sendo o mediador, guardador de todos os males. Também ao feminino caberiam todas as culpas em uma sociedade patriarcal, afinal Pandora abriu a caixa vítima de sua curiosidade. Mas também libertou-se do jugo dos deuses soltando da caixa sentimentos, emoçõ...

Cruzes

  Sempre tivera medo de cruzes. Medo não. Uma espécie de desprezo, como se uma fraqueza de espírito levasse alguém a uma  sensibilidade afetiva por cruzes.  Cruzes no peito, na parede, tatuadas. Antes do cristianismo existiam as cruzes sim, desprovidas do caráter emocional criado depois da morte de Jesus. Mas isso não importava. Uma altivez acompanhava Vania. Se encontrava no rol daqueles que achavam não precisar de cruzes. Apoios religiosos, nenhum de seus símbolos. Se colocava no papel de quem observa as tentativas humanas de projetar seus medos em objetos místicos, amuletos de sorte. Mas no fundo queria poder sentir alguma emoção religiosa. Sómente quando olhava o verde, raízes, árvores, terra, sentia-se perto de Deus. Pois nunca sentira o toque de Deus. A possibilidade de que uma força maior inexplicável, onírica, absoluta, infinita estivesse por trás de tudo. Mas as cruzes eram definitivas. Altruístas na sua geometria do sofrimento. Vania estava destinada a nunca alc...

Lembranças não ficam em objetos

 É preciso saber se desfazer das coisas,  símbolos do passado, ícones,objetos secretos. Bibelôs,  camisas rasgadas, guardadas em caixas com outras tantas coisas.Coisas das quais não  conseguimos nos desfazer. Mudando de cidade, de casa, carregando blusas, calças,mantas, luvas, poesias, diários. O que iremos fazer com tudo isso? Digitalizar o passado seria a solução? Por que começar do nada é sempre difícil. Principalmente se for no meio da vida. Partidas, separações, e a  sensação de não ter chegado a lugar algum.Queremos acontecer, causar, influenciar , ensinar, engrandecer a humanidade com algum legado. E que  mesmo  sendo pequeno, esse legado ficar inscrito na memória de muitos. Em livros,discos ou ensinamentos. As lembranças não precisam de objetos para fazer reviver  emoções perdidas. Talvez só atrapalhem a verdade das coisas. Nos iludam no fundo das caixas. As  emoções verdadeiras não dependem de ícones ou símbolos. Quando olhamos ...

A mulher invísível

Então ela disse: eu sofri mais do que você. Carregar dores , fazendo delas um teatro particular que deveria  ser assistido com admiração pelo outro, isso um narcisista deseja o tempo todo. Como quando ela saia falando alto pela rua, incontrolável. A energia sempre jogada no lugar errado, errando o alvo. Se perguntava até quando se culparia por todos esses erros que a haviam jogado em uma situação financeira e emocional catastrófica. A vida inteira jogando contra si mesma, isso inaceitável agora. Como havia sido difícil aceitar-se  na maturidade, quando dava-se conta dos erros de maneira tão clara. Estava tentando sair do buraco , a maconha ajudava. Desde que usada na quantidade certa. A vontade de ficar na preguiça de desistir de lutar ainda  era muito grande. Depois de dois anos se automedicando com antidepressivos simplesmente por que não trabalhava, por que não lembravam mais dela.O medo de ser esquecida inundava sua alma de uma pesada névoa. Um remédio atrás do outro ...

Urgência de viver

  Era uma urgência de viver tão grande que não lhe permitia pensar. Era um vozerio de tanta gente em sua cabeça que não lhe permitia gostar das pessoas. Em alguns momentos até gostava, como do filho. Um amor dolorido por que de precisar . Precisar tanto que já não servia para nada. Se buscava nos espelhos, se refazia nos olhares que lançava as pessoas na rua. Quem eram aqueles seres costas recurvadas que tanto lhe apavoravam.? Estaria ficando louca talvez. Mas não tinha certeza. O que sabia era que precisava fazer. Agir. Ter coragem de se olhar no espelho e gostar de si mesma. Por que foram tantos erros que deixara de gostar.

O CAMINHO DO MEDO

Deixava-se inundar pela angústia como uma roupa usada a qual se agarrava para não alcançar a felicidade. Sempre achara que não merecia ser feliz. Não conseguia sentir-se em casa naquela lugar. Sentia-se uma intrusa no meio daquelas pessoas, quase uma criminosa. Tinha sido nesse tempo que morara ali,  frágil,  envolvendo-se em conflitos com moradores da casa. C asa  acolhedora, bonita, em o a uma vila arborizada, tranquila. Poderia ter sido feliz ali, mas não. Será que ainda seria tempo A imagem que criara a incomodava,  de uma mulher quebrada financeiramente, com parentes viciados em drogas. Esquisita, desiquilibrada. Problemas no aluguel havia tido.  Precisaria ganhar mais dinheiro para sair. Mas a  depressão ia minando as iniciativas que poderiam ser tomadas para ter mais sucesso profissional. A tristeza por ver-se menos bela e desejada. Então castigava-se.  Já não suportava ficar sózinha. Questionava-se se aquilo seria produto dos seus medos, um can...

Jogou fora os remédios

Nesse dia jogou fora o Rivotril na pia espirrando seu conteúdo no ralo, como uma bisnaga. O líquido viscoso com gosto bom, levemente adocicado que havia acompanhado seus dias durante uma década. Durante dois anos tentou livrar-se muito lentamente do benzoazepínico pois havia chegado ao número de 37 gotas,  equivalente a 4 comprimidos de 2mg . Tomava à noite para dormir  seis horas reconfortantes de sono. Depois de tanto sacrifício teve as recaídas. Ia buscar no posto médico um tubinho, tirava o rótulo. Por três vezes pegou o remédio para depois jogar fora.   Tinha  medo da angústia que ainda  acompanhava sua rotina. Foram várias recaídas, pingava na palma da mão  3, 4 , até 5 gotas em dias perversos. Sempre quando acordava no meio da noite cheia de medo do presente. Sabia que se ficasse com ele novamente não poderia mais seguir como planejara. Firme , enfrentando pensamentos sombrios que tornavam sua mente um lugar insuportável de estar. Nesse dia ac...

A cantora

Lá estava cantando músicas eternas, choros de amor e modismos do rádio, aos amigos imaginários que lhe pediam estrofes com molho ao prato. Sem vontade, cresciam sua boca e olhos ao ver que a olhavam, esperavam que seus lábios combinassem notas num crescendo interminável, ao som do conjunto. Lembrava  aquele amor tão frágil, com fervor, de como  estremecia diante dos dedos longos daquele homem, criança inocente. Seu caráter em quatro paredes, o medo da solidão, do ridículo, coisas insossas que lembravam o vazio, a insatisfação de ouvintes-dançarinos, que ignoravam seu profundo palpitar. Tão carente como as bichas que por ali apareciam e sumiam, bobos da noite. Perseguia, feito eles, com passos invisíveis, homens e mulheres nas ruas sem saber por que.  Cantava boleros, tangos em borbotões de vogais, naquela noite. Trabalhava a voz rouca lentamente no palco pobre. A bebida passando. Os copos tilintavam no espaço lânguido do bar. Pensava nos olhos sombrios e ardentes do amant...

Uma sessão

Amanda resolveu ir ao psicólogo. Ligou  perguntando se lhe seria cobrada  consulta. A moça disse que o melhor era falar disso depois.  Técnica utilizada por psicólogos: não falar em valores na primeira conversa, isso já estaria envolvendo o paciente, trazendo-o para a consulta pensava Amanda. No dia determinado entrou na saleta alugada em um prédio comercial do Catete, sentindo-se totalmente inadequada. A mulher ainda era jovem, essa terrível doença , velhice estaria em segundo plano ali.  Pela primeira vez  ao defrontar-se com um psicólogo sentiu cansaço para falar. Não sabia por onde iniciar o discurso, eram tantos os fios, tantas histórias. Carregava um livro grosso nas costas. Um livro que a fazia curvar-se diante da vida. A psicóloga não falava,  apenas fazia um som com a boca que a irritou. Parecia estar ruminando expectativas. Ali estava com um nome falso, seria  mais fácil escapar caso não gostasse. Precisava saber por que sentia tanta tristeza...

Maratonas e humores

Saíra pela manhã de casa  para correr embora não soubesse se o queria realmente. Uma força física a empurrava. Como um animal enjaulado buscava a liberdade. Enjaulada em suas próprias armadilhas existenciais.  Não suportaria estar em casa o dia inteiro. Naquela casa antiga. Precisava cuidar das partes quebradas nas lajes do pátio. Os batentes das portas descascando. Fogão e geladeira enferrujando .A gata que havia sofrido maus tratos por sua família agora  com ela. O bichano era  agitado .Devia já ter seus 15 anos, urinava na base da geladeira a noite e as vezes na porta de seu quarto. Haveria  de colocar uma bacia de areia em cada ponto onde ele urinava. Chegou ao aterro do flamengo que no domingo sempre se encontrava fechado para carros. Dava-lhe  prazer redobrado, pela amplitude de horizontes, espaço largo para correr. Sentia o corpo pesado. Sempre associava estas sensações a idade que lhe pesava mais do que deveria pois gozava de boa saúde.  Ao pas...

Aplicativo de desencontros

Laura era depressiva, daquelas que disfarçam bem. Porque seguia sua vida, mas com o tempo aquilo vinha aumentando, aquele vazio dentro do peito. Estava envelhecendo e não mais teria os olhares dos homens sobre si. Deveria existir além do corpo, transcender toda a materialidade que havia regido sua vida até então. Os espelhos já não serviam de apoio. Deveria aceitar que agora seu organismo estava mudando, transmutando. Ainda tentava buscar um parceiro em aplicativo de encontro. Apesar de sentir-se mais atraída por homens mais jovens do que ela, configurou suas buscas para homens mais velhos. É claro que homens mais velhos buscavam sempre mulheres mais novas. Então apostou no perfil de um homem que  dizia ter 64 anos , professor de direito em universidade aposentado e que parecia ser otimista. Na primeira conversa ao telefone percebeu a impaciência do sujeito, porque ligava insistentemente e não entendia por que ela não atendia, como se atende-lo fosse infringir alguma lei da naturez...

Não se escuta protestos em Laranjeiras

Já não se escutam mais os fora bolsonaro ás 20:30 da noite no bairro de Laranjeiras, RJ . Durante meses este era o horário das panelas e da frase que ajudava na auto estima política.  Discussões políticas passaram a nos cansar. Sempre os mesmos atores, moscas do poder e do dinheiro. Um  fantoche  está no comando do país. Parece um castigo pelo qual teremos de passar, assim como pela pandemia. O nível de compreensão política do povo cresceu. A velocidade das informações é cruel, veloz, esmagando em poucas horas  notícias sobre  morte célebre ou de um estupro na comunidade. Mílicias impunes e paraísos ficais criados em torno de vacinas. É fácil ver como homens civilizados conseguem esquecer o bem comum em nome do lucro. Já não sabemos em quem acreditar. Parece que agora a tendência é crer em quem "rouba" menos.   

Doença imaginária

Começou ouvindo vozes no  seu apartamento em Porto Alegre. Dizia aos filhos  ao telefone que ouvia sempre o mesmo homem  murmurando. Achavam que era porque morava só há bastante tempo e que poderia ser  um efeito normal do envelhecimento. Já então contava com seus quase 80 anos. Ela vinha  uma vez ao ano ao Rio de Janeiro. Em uma destas  ocasiões, deu-se o inevitável Dona Aparecida teve um surto psicótico. Voltava um dos filhos do trabalho e ao entrar na casa deparou-se com o irmão, sobrinhas, cunhada sentados solenes ao lado de Dona Aparecida no sofá da sala atentos todos a televisão.  Cordatos com a história  imaginária que a mente da velha senhora  havia criado.  História com pormenores que impressionavam. Dizia estar sendo monitorada por homens encarcerados donos de poderosa máquina dentro da cela. O artefato clandestino emitia  ondas eletromagnéticas que entravam em seu cérebro dando-lhe ordens e vendo através de seus olhos. El...

Rebanho mascarado

Nunca foi tão difícil e angustiante andar pelas ruas da cidade. Homens, mulheres, idosos mascarados em quantidade nos fazem pensar na morte. O medo de morrer e de perder pessoas amadas. Assim do nada o destino virado , contaminado pela natureza de um vírus implacável e invisível. Por hora nada sabemos e essa impermanência e indefinição do que poderá ser o dia de amanhã nos tira o sono. Capitalismo e comunismo questionados e postos a prova em todos os continentes onde imperam. Sistemas políticos não conseguem segurar a natureza cruel das epidemias. A sensação de impotência é imensa. Mas a  roda precisa girar ,  não podemos seguir presos a risco de entrarmos todos em falência financeira e psicológica. Nós o rebanho, temos de sair do abrigo para sobrevivermos, o mundo online já não dá conta de nossas necessidades.Estamos fatigados de tantas lives,de exercícios físicos que surgem aos milhares colocando a prova nossa  forma física.Porque um vírus que morre com sabão e  ...

Palhaço do mal

Ser um palhaço é deveras complexo. O que o palhaço faz nada mais é, do que imitar a vida ao contrário. Tudo que é errado pode estar certo e vice versa. Sempre estaremos diante do  mal e do bem numa mesma intenção ao assumirmos nosso " palhaço" interior. Veremos que o mal ou o ruim se transformará em piada,em tropeço.Em um tapa atrapalhado. O bem estará sempre em risco, um risco que se renova a cada momento fazendo com que a desfaçatez e o mau caráter se transformem em inocência. Que mágica fabulosa essa! Não é nada fácil ficar em frente aos outros fazendo palhaçadas gratuitamente, tentando buscar o truque certo, o mote, o suspense e a risada.

Confinados na esperança

Oque fazer agora diante do inusitado de estar passando por uma crise social, de saúde pública e recessão econômica? Não sabemos. O futuro é incerto. A cada dia despertamos tentando construir uma felicidade imaginária. Com o que nos resta usufruir. Leituras, séries na TV,cursos online.Tentamos nos valorizar mais  através de pequenas coisas que antes fazíamos e que estavam esquecidas. A convivência com nós mesmos, neste isolamento obrigatório, nos  mostra novas perspectivas, mas a incerteza nos cobre a razão.  Que saudades temos de um abraço, de um aperto de mão. Ainda perplexos diante de uma catástrofe biológica, ainda temos de suportar a desumanidade de políticos egocêntricos , corruptos. Temos diante dos olhos a fragilidade dos sistemas, sejam socialistas ou de direita, corroídos por um vírus que diante de nossos olhos vai consumindo vidas impunemente.

Amores fakes

Neste período em que nos vemos tolhidos da liberdade de transitar livremente, acabamos por descobrir nichos que estavam ocultos , preguiçosos em um canto da mente ou da casa.Nichos ou partes de nós que seguiam a espreita em busca de uma oportunidade para ressurgirem e terem a sua chance de mostrar alguma atividade.  Fiz uma lista das coisas que deveria fazer hoje,parece simplista, mas está dando certo. Tenho me visto perdida entre os muitos afazeres ou um deixar-me estar. Achava bobo quando ouvia influencers de auto ajuda discernirem sobre como conseguir sucesso na vida.Todos quase sempre citam este artifício: fazer uma lista. Mas quantos listas fazemos e não cumprimos. Mas agora somos nossos patrões. Portanto temos que cumprir a lista! E encabeçando a minha  lista hoje está : escrever no blog. Eu não devo postergar , nem atropelar tarefas que podem parecer mais importantes depois de feita a tal lista. Preciso seguir a lista e ponto. Mas sobre o que deveria eu escrever h...

Retorno do desejo

Porque sentir tesão é importante para quem ainda não chegou aos cinquenta anos ou para quem está na casa dos sessenta? Porque traz a sensação de que estamos vivos. Talvez um dia não  faça mais falta, estejamos preenchidos por outras e diversas emoções. Mas viver sem sentir desejo sexual por outras pessoas, é  o mesmo que  ter de conformar-se com não poder sentir o sabor da comida. Uma vez uma conhecida  disse através de sua escassa sabedoria que nenhum homem percebe nossa presença se não estivermos, nas suas palavras, abertos para o sexo.Isso seria o mesmo que dizer: somos invisíveis quando nossa auto estima está baixa.  O que significa estar aberto para o sexo? Não é sair por ai mendigando olhares masculinos , nem viver uma ansiedade permanente sem conseguir focar no trabalho. É sim perceber o outro como  possibilidade de encontro afetivo.  Devem ser os tais ferormônios. Quando existe o desejo, existe a vontade de estar com alguém, tocar, beija...

Seu Daniel

Seu Daniel é um morador de rua antigo aqui no bairro de laranjeiras . A curiosidade  me levou a fazer uma entrevista com ele no celular. Me chamava  atenção a presença quieta deste homem, plantado na esquina com dois carrinhos de supermercado cheios de tralhas e cobertos por plásticos e panos. Sentado ali, todos os dias escrevendo com caneta em caderno de papel. Sua presença  invisível,  na esquina de  calçada muita larga, não atrapalhava a passagem das pessoas. Ninguém notava sua presença mesmo quando com 42 graus de calor ele continuasse com touca de lã e casaco de couro. Resolvi um dia  falar com ele , pedi permissão, já que  por sempre estar assim coberto, dava  medo. Sua voz, para minha surpresa soava  baixa quase balbuciada, talvez porque não conversasse há muito com ninguém. Tinha que chegar bem perto para poder ouvir o que dizia. Perguntei o que escrevia nos cadernos. Estou escrevendo a história de minha vida , disse ele. Contou qu...